Chegou a hora do Adeus!

BIG, Adeus, Melhor Cão, Eutanásia

Nos últimos anos, todos os artigos, escritos neste blog, foram alvo de estudo e pesquisa, de forma a vos facultar, informações atualizadas e fundamentadas, sobre treino e modificação comportamental de cães.

A verdade é que hoje, para este artigo, não preciso de pesquisas e estudos, só preciso de digitar aquilo que sinto neste momento. É um texto pessoal e intimista, sem público alvo definido. Ainda nem entrei no cerne da questão, e já tenho um rio de lágrimas a escorrer-me pela cara abaixo. Está a ser extremamente complicado lidar com a situação!

Para aqueles que não me conhecem pessoalmente, o rapaz de 1m e 90, com barba e ar de durão, é um ser extremamente emotivo, que não consegue exprimir emoções que não sente. É um ser com uma personalidade forte e frágil ao mesmo tempo, tudo depende do estado de espírito que mantém no momento.

Hoje tive que dizer adeus, ao meu melhor amigo, ao companheiro que todos os dias me recebia da mesma forma, ao ser vivo que me reconfortava quando me sentia mais em baixo, mas acima de tudo disse adeus, ao meu cão, um membro da família, responsável por todo o sucesso profissional que obtive até à data de hoje. Sim, porque para quem não sabe, foi graças a ele, que me tornei Treinador de cães.

 

Há 9 anos atrás, decidi ter o meu primeiro cão, e mesmo sem experiência com cães, tinha um gosto especial pelo Rottweiler. Contra tudo e todos (inclusivamente familiares), trouxe a bola de pelo preto, com manchas castanhas para casa, e dei-lhe o nome de BIG. 

É indescritível, o vínculo que criei com o BIG desde o primeiro dia. O sentimento e relação que criei com ele, é similar ao sentimento e relação que tenho pela família chegada, então faz sentido chamar a este relacionamento – Amor.

À medida que o BIG foi crescendo, começaram a surgir muitos problemas comportamentais, fruto da minha falta de conhecimentos e informações. O BIG começou a apresentar comportamentos agressivos para com pessoas não familiares, e outros cães. Foram dezenas de pessoas, mordidas por ele na altura, uns sem danos visíveis mas outros com perfurações de pele! Os conselhos na altura eram unânime, “Tens de te desfazer desse cão, o quanto antes”! Eu sabia que tinha um sério problema nas mãos, tinha a consciência de que o meu cão era uma ameaça para os estranhos que se aproximavam dele, mas ao mesmo tempo, estava fora de hipóteses, eu livrar-me dele!

Tinha um problema, e só tinha um objetivo, arranjar solução! Foi aí que comecei a interessar-me por treino e comportamento de cães. Frequentei escolas de treino, comprei livros e DVD's, comecei a inscrever-me em cursos, seminários e workshops. Grande parte do meu tempo, girava à volta de, como vou resolver o problema do BIG.

Tudo o que lia e via, punha em prática com o meu cão. Desde coleiras estranguladoras, coleiras de bicos e até coleiras de choque. Sim, não tenho problemas em dizer que fiz muita “merda” com o BIG! Será que me arrependo? Não! Porque toda a porcaria que fiz com ele, ajudaram-me a tornar-me naquilo que sou hoje, um treinador que não precisa de recorrer a ferramentas aversivas para resolver problemas comportamentais.

Hoje em conversa telefónica, com uma amiga, foi-me dito, que os cães surgem na nossa vida com uma missão bem definida. “A do BIG foi fazer de ti, o treinador que és hoje”. Não sou muito de superstições, mas tenho que concordar com ela, e sinto-me tão grato por o ter tido na minha vida.

Naquela altura, o treino com ele, passou a ser cada vez mais baseado em técnicas de reforço positivo, e os aversivos foram caindo em desuso. Porquê? Porque os resultados eram mais evidentes, e não fazia sentido, usar técnicas que envolvem dor e medo, num ser que eu tanto amo!

À medida que o tempo ia passando, ia vendo um BIG cada vez mais feliz e menos problemático. Orgulho-me de ter resolvido os problemas dele, ao ponto de poder passeá-lo em espaços públicos sem medos das consequências, ao ponto de o levar a caminhadas e demonstrações, com dezenas de cães e crianças à mistura, ao ponto de receber visitas em casa, sabendo que tinha o problema controlado. Nos últimos anos, trouxe-lhe companhias para casa (a Foxy e o Lucky), e NUNCA vi um único comportamento agressivo por parte do BIG para com estes.

 

Em 2016, tive o dia mais feliz da minha vida, o nascimento da minha filha! Surgem então algumas preocupações, tendo em conta o historial do BIG, com crianças no passado. Fiz muito trabalho com ele, no sentido de evitar conflitos em casa. Mais uma vez, este cão demonstrou ser um exemplo de cão, NUNCA demonstrou qualquer sinal problemático com a minha filha. Enfim, tenho tanto orgulho nele, que podia passar horas a falar do nosso passado em comum.


Infelizmente, hoje, as consequências da vida, decidiram tirar-te do meu futuro (deixaste de estar presente fisicamente, mas podes ter a certeza, que mentalmente vais comigo para o caixão!)

Já me tinha vindo a preparar para esta situação. Nos últimos meses, a tua mobilidade estava cada vez mais reduzida, e a nossa veterinária já nos tinha informado que a tua visão já estava a ficar debilitada.

No fim de semana, vi-te um pouco em baixo, mas como comes-te bem e os passeios correram com normalidade, minimizei o caso mas mesmo assim, no Domingo à noite marquei consulta com o veterinário para hoje. O problema surgiu hoje de manhã, quando acordei e vi-te completamente desorientado, a bater contra as portas e paredes de casa. Fiquei sem forças, não queria acreditar no que estava a ver. Percebi que algo de muito grave tinha acontecido. Cancelei todos os treinos que tinha agendado, pois tinha a sensação que hoje era o teu último dia de vida, e queria aproveitá-lo ao máximo contigo. Visto que a nossa veterinária habitual, não estava disponível nesse momento, liguei à nossa amiga Dra.Ana Rita, que já conhecia o BIG, e fomos logo ter com ela a Viana do Castelo. Quando chegamos, o check-up confirmou que estavas completamente cego! A causa estava relacionada com derrames cerebrais (sinceramente, a Dra. explicou-me os problemas de saúde, mas já não estava em modo de arquivar informações, já só pensava no que tinha que fazer). Nesse momento, tendo em conta a tua idade, escassa mobilidade, e cegueira associada a causas cerebrais, decidimos dar-te um fim digno e sem sofrimento, como merecias.

No entanto, essa decisão ficou adiada para a parte da tarde, pois ainda queria passar umas horas, a sós, contigo. Saímos do consultório e passamos no Mc Drive, comprei uns hambúrgueres e fomos até à praia. Escolhemos uma zona isolada, onde ninguém pudesse interferir neste último momento, só nosso. Mesmo cego, e a passo de caracol, caminhaste pela areia, guiando-te apenas pelo meu tom de voz. Estavas cego, num contexto completamente estranho, e mesmo assim, confiaste em mim e nas minhas indicações – Grande Cão! Fizemos várias fotos e filmagens, comeste os hambúrgueres, falamos imenso, adormeceste na praia, trocamos afeto, enfim foram os nossos últimos momentos, juntos, com alguns risos e muitas lágrimas à mistura. Não queria mesmo deixar-te partir, mas ambos sabemos que era a decisão certa.​

Depois deste nosso momento a sós, fomos para o consultório, e quando lá chegamos já estava tudo preparado. Peguei em ti ao colo, coloquei-te em cima da mesa, e abracei-te com todas as minhas forças. Durante todo processo, fiquei ao teu lado, enchi-te de beijos, disse-te o que tinha a dizer e senti os teus últimos suspiros. Chorei como nunca tinha chorado, ao ponto de as lágrimas secarem. Peguei no teu corpo e fizemos uma viagem de 90 minutos, em direção à casa dos Avós, casa onde passaste a maior parte da tua vida, e local que escolhi para te enterrar. Enquanto preparava a tua cova, as lágrimas que tinham secado, voltaram. Só me lembrava dos fantásticos momentos que passamos juntos e de quanto foste importante na minha vida. Sem margem de dúvidas, que foi o pior dia da minha vida!

Obrigado por tudo meu amigo, posso garantir-te que tua missão, para comigo, foi cumprida com mérito e excelência. Só espero ter cumprido a minha missão, para contigo! Amo-te Big e espero reencontrar-te um dia.

P.S: Juntamente com teu corpo, deixei a tua bola de ténis preferida. Independentemente de onde tu estejas, espero que alguém brinque contigo como eu brincava diariamente.