O meu cão não gosta das idas ao veterinário!

Ultimamente tenho sido contactado por alguns tutores que mencionam que os seus cães se sentem desconfortáveis e alguns até apresentem comportamentos agressivos no centro veterinário. Algumas pessoas referem, que esses comportamentos problemáticos, são fruto dos cheiros e sons que pairam nesses contextos. A minha experiência diz-me que essa justificação não é a causa do problema, mas pode ser sim, mais um factor a influenciar o problema.

Os cães começam a frequentar os centros veterinários, por volta dos 2 meses de idade, altura essa em que estão em pleno período de sociabilização, com esta idade os cachorros são “super” curiosos e procuram explorar e conhecer o mundo que os rodeia, com baixas probabilidades de agirem agressivamente. Sendo assim, a primeira visita do cachorro ao veterinário, é feita sem nenhum condicionamento negativo associado. Os cheiros e sons presentes na clinica, são estímulos que o cachorro vai encarar com alguma curiosidade mas dificilmente serão um entrave que o cachorro não consiga ultrapassar de forma natural, a não ser que se encontre lá um cão a ladrar e que esse cachorro já tenha tido uma má experiência com outro cão num contexto diferente e o possa ter generalizado para o centro veterinário, mas isto é uma situação diferente.

Então qual é a principal causa dos medos dos cães às idas ao veterinário? A resposta é simples, vejam como é que alguns cachorros são tratados nas clinicas veterinárias. O tutor e o cachorro estão pacificamente na sala de espera e de um momento para o outro, a porta do consultório abre-se e aparece um estranho vestido de branco, que incentiva o tutor a entrar com o seu cachorro. Já dentro do consultório, a pessoa estranha vestida de branco (veterinário) pega no cachorro e coloca-o por cima da balança (um objeto que o cachorro nunca viu na vida), o cachorro incomodado tenta sair mas o veterinário obriga-o a permanecer na balança de forma a saber o peso exato. Logo de seguida, o cachorro é colocado por cima de uma marquesa (mais um objeto que nunca viu na vida) e o veterinário começa a manuseá-lo, investiga as orelhas, a zona genital, os dentes...... o cachorro incomodado de tanto manuseamento físico, torna-se um pouco reativo e lá vem o tutor dar uma ajuda ao veterinário e segura firmemente no cachorro, de modo a que ele permaneça imóvel enquanto é examinado. Neste momento já temos um cachorro em stress mas mesmo assim falta a etapa principal. Após a examinação, surge o veterinário com uma seringa, agarra no cachaço do cachorro e espeta-lhe uma injeção, o cachorro sente dor e gane. Como se isto não bastasse, o veterinário abre a boca do cachorro, enfia-lhe um comprimido pela boca abaixo, fecha-lhe a boca e mantêm o focinho pressionado até que o cachorro engole o comprimido. Acabado todo este procedimento, como é que acham que o cachorro se sente? Será que a experiência foi positiva ao ponto de ele querer voltar? Logicamente que não! A forma como foi tratado fez com que tenha ganho medo, e como tal a associação ao centro veterinário, é algo que ele quer evitar no futuro. A real causa do problema foi o tratamento a que foi sujeito, os cheiros e sons apenas entraram para o problema fruto do condicionamento clássico, no qual o cachorro criou uma ligação entre o veterinário, os cheiros, os sons e o espaço em si.

Como evitar este problema:

O Veterinário –
Escolha um veterinário recomendado por amigos ou conhecidos. Peçam opiniões e tentem saber de que forma é que o Dr. interage com os seus pacientes. Existem os veterinários que apenas se preocupam com a saúde do cão e depois existem aqueles que se preocupam com a saúde e o bem estar do cão. Optem sempre por estes últimos.

Visitas – Faça algumas visitas ao veterinário antes da primeira consulta. Leve o seu cachorro ao centro e divirta-se com ele no interior. Brinque, dê-lhe biscoitos, peça ao veterinário que também interaja de forma positiva com o cachorro. Desta forma, quando for o momento da consulta o cachorro já terá uma associação positiva ao espaço.

Manuseamento – Comece em casa a manusear o cachorro nas várias partes do corpo e vá recompensando à medida que o faz. Peça a familiares para também o fazerem, quantas mais pessoas o fizerem melhor. Isto vai fazer com que o cachorro não se sinta incomodado ao ser manuseado no futuro.

Consulta – Tanto o tutor como o veterinário devem respeitar o cachorro e tentar fazer os procedimentos obrigatórios de forma calma. Dar-lhe espaço quando ele precisar e criar associações positivas a todos os estímulos que vão ser usados (ex. em vez de colocarmos o cachorro na balança, podemos incentivá-lo com um brinquedo ou comida a subir para a mesma).

Após as consultas – Sempre que passar à frente da clinica, entre só mesmo para dizer um olá ao veterinário e se o Dr. não tiver ocupado poderá sempre perder 1 ou 2 minutos para interagir com o cachorro. Conheço muitos veterinários que adoram receber estas visitas espontâneas.