O meu cão tem medo à trovoada e ao fogo de artíficio! O que posso fazer?

Se é daqueles tutores que possuí um cão com este tipo de medos, certamente já ouviu as seguintes citações e conselhos:

 “Não lhe faça festas, nem o tente aconchegar, caso contrário estará a reforçar os seus medos”

 “Não lhe dê qualquer tipo de atenção, pois dessa forma poderemos dar-lhe razões para se sentir com mais medo”

“ Se ele vier ter consigo para procurar conforto e segurança, afaste-se dele, e deixo-o enfrentar a situação por ele próprio”

Para começar este artigo, o primeiro conselho que lhe dou é “Formate a memória e esqueça todos esses conselhos que lhe deram”!
As frases acima citadas, não passam de mitos e memes, que se tornaram virais mas que não possuem qualquer tipo de fundamento!

O medo pode ser reforçado?

Quando falamos em reforços, abordamos o condicionamento operante. Quando aplicamos o condicionamento operante, estamos a aplica-lo exclusivamente sobre comportamentos. Ou seja, falar de reforços só faz sentido, se estivermos a falar de comportamentos! O medo, é um comportamento? Claro que Não! O medo é uma emoção (uma resposta reflexa), e ao contrário dos comportamentos,  as emoções não podem ser reforçadas.

Medo ou Fobia?

Quando falamos na reatividade de um cão, a estímulos como trovoadas ou fogos de artifício, é extremamente importante distinguirmos se o cão está a sentir medo ou fobia! A diferença entre ambos, está na intensidade em que a ameaça é persentida. O medo, é uma resposta emocional perante uma possível ameaça. É uma resposta reflexa, de sobrevivência, que vai comunicar com o resto do organismo para se preparar para uma ação. Quanto à fobia, trata-se de um medo acentuado e descontrolado, que causa pânico e ansiedade, em intensidades problemáticas, pondo em causa o bom funcionamento do organismo, assim como a qualidade de vida do ser.

Como devem imaginar, solucionar um problema de fobia é bem mais complexo e exigente do que solucionar um problema de medo, mas vamos abordar os tratamentos mais abaixo.

Devemos ou não, acolher, confortar e acariciar os nossos cães quando sentem medo ou fobia?

Claro que sim! Devemos proporcionar-lhes toda a segurança que eles depositam em nós, e fazê-los perceber que podem confiar nas nossas ações e que estamos lá para os proteger. Quando o seu cão se sentir inseguro, mantenha-se calmo e conforte-o com festas e aconchego. Utilize um tom de voz natural para o ajudar a ultrapassar o problema (evite usar tons de vozes agudos e preocupantes do tipo “o meu pequenino, não tenhas medo, aquilo não faz mal”, isto não é agir com naturalidade).

Que benefícios trazem o conforto e as festas que damos aos nossos cães, em momentos em que eles sentem inseguros?

São vários os benefícios, e o mais óbvio, é o de transmitirmos segurança ao nosso cão, de forma a que ele possa ver-nos como fonte segura para o ajudar a ultrapassar obstáculos. O vínculo tutor/cão resulta quando existe este espírito de confiança e cooperação entre ambos. Outro beneficio está associado às hormonas que são ativadas pelas festas e conforto que proporcionamos aos nossos cães. Quando um cão se sente aconchegado e reconfortado com caricias, fisiologicamente ocorre um maior fluxo de oxitocinas e prolactinas no organismo do cão, e isto influencia positivamente o relaxamento e a calma do animal.

Tratamentos

Antes de falar nos tratamentos, gostaria de abordar a prevenção. Temos que ter em consideração que os cachorros nascem, sem qualquer tipo de associação à trovoada e fogo de artifício, ou seja, o problema pode instalar-se na primeira vez que o cão for confrontado com estes sons. Para prevenir que o problema se instale, podemos ir fazendo um processo de dessensibilização e criar uma associação positiva para com esses barulhos. A forma mais simples de preparar o cão para a situação real é, começarmos a habituá-lo a estes sons desde cachorros ou assim que os acolhermos. Existem no mercado alguns cd’s com esse próposito, com faixas de trovoadas e fogos de artifício gravados, mas pode recorrer ao youtube e encontrar os mesmos sons de forma gratuita e de fácil acesso.

Para iniciar, prepare a ração ou os petiscos que o seu cão mais gosta e instalem-se num ambiente calmo sem distrações. Prepare o som que vai querer dessensibilizar e criar uma associação positiva, e reproduza-o a um volume muito baixo. Assim que o som começar a tocar, comece logo a reforçar o seu cão pela experiência. Faça sessões curtas de play-comida, pausa-ausência de comida, para obter melhores resultados por condicionamento clássico. Gradualmente, vá aumentando o volume e continue com as sessões de play-comida, e pausa-ausência de comida. Pratique isto várias vezes por semana.

Quando sentir que o seu cão está totalmente relaxado e motivado pelo som, pode testar a resposta do seu cão, deixando-o sozinho, com um brinquedo de estimulação mental, enquanto ouve trovoada/fogo de artificio num leitor ou televisão. Deixe o computador ou uma câmara a filmar, pois desta forma poderá analisar e averiguar se o seu cão está ou não seguro com a situação.

Quando chegar o dia D, o dia em que o cão vai ser confrontado com a situação real, temos que estar preparados. Se estivermos a falar nos fogos de artifício podemos prever quando os mesmo irão surgir, pois as festas costumam estar assinaladas na agenda. Em relação à trovoada, já é mais difícil, pois o “S. Pedro” não nos passa essa informação, sendo assim temos que estar preparados a qualquer momento. Tenha sempre reforços por perto, independentemente do local da casa em que se encontra, e assim que surgir o som, no contexto real, comece logo a reforçar o seu cão. Se o processo de treino foi efetuado de forma correta, no dia D o seu cão vai estar preparado e motivado com o som “Yuppy, este barulho costuma estar associado a comidinha”.

Para os casos em que não ocorreu treino prévio e em que o medo/fobia já está condicionada, sugiro os seguintes tratamentos.

- Faça exatamente o mesmo treino da prevenção (como descrevi em cima), no entanto o processo vai exigir mais paciência e cuidados. No caso da prevenção, ao inicio, não existe qualquer associação entre o cão e o som da trovoada/fogo de artifício, o que torna a aprendizagem mais fácil. Mas aqui já temos um problema instalado,  o cão já tem uma associação negativa para com o som, ou seja, o processo já exige uma dessensibilização e contracondicionamento, daí a importância de ter cuidados redobrados. Provavelmente, para começar, vai ter que colocar o volume a um nível quase inaudível e vai ter que usar reforços de alto valor.

- Quando surgir a trovado ou fogo de artifício, tente gerir a situação e leve, calmamente, o cão para outra sala, onde o barulho não se faça sentir com tanta intensidade, reconforte-o, acaricie-o e se tiver comida presente pode incentivá-lo a comer, reforçando-o a cada barulho que surja (é importante mencionar que se o seu cão estiver sob stress intenso, dificilmente irá comer, e nestas situações não o force a comer, caso contrário poderá criar uma associação negativa entre comida e trovoada, ao invés de trovoada e comida, como era pretendido). Relembro para agir sempre com a maior naturalidade possível. 

Conforme mencionei em cima, trabalhar com fobias é bem mais complicado e na maioria dos casos, o treino só, não é suficiente. Nestes casos, o apoio veterinário é crucial, com a prescrição de fármacos, produtos naturais ou homeopáticos.

Alguns sinais que podem indicar que o seu cão tem fobia

-     Correr descontroladamente pela casa

-     Tentar ou fugir de casa

-     Entrar em “Desamparo aprendido” (o cão permanece imóvel sem se mexer, deixando de ter controle       sobre as suas ações)

-     Apresentar comportamentos obsessivos compulsivos

-     Apresentar comportamentos destrutivos

-     Defecar e urinar

-     Redirecionar mordidas para objetos ou pessoas/animais que se encontram no contexto

-     Tremores

-     Esconder-se

-     Salivar

-     Vocalizações (ladrares, ganidos rosnar, uivar)

-     Vómitos

-     Diarreia

Nota Final

Este tipo de reabilitação, não é propriamente fácil, porque existem muitos aspetos que não conseguimos simular no treino. Aspectos como as diferenças de pressão que podem iniciar horas antes da trovoada surgir, as vibrações resultantes da trovoada e da explosão do foguete,  o “espetáculo” de cores num sessão de fogo de artifício, são alguns factores que podem interferir na aprendizagem e generalização do treino.