Sociabilização – A ferramenta chave na prevenção de problemas comportamentais

Infelizmente, temos sido bombardeados com noticias que envolvem cães e crianças. Muito se tem dito, nos telejornais, nas revistas, nos blogues, nas redes sociais e por aí fora, mas nenhuma informação vai ao encontro dos princípios que eu defendo, e daí esta minha publicação.

Nos útlimos dias, ouvi:

Treinadores a mencionarem a importância do treino para prevenir episódios destes!

Ouvi a Ordem dos Veterinários, a solicitar maior rigor na aplicação da legislação!

Ouvi pessoas, a apoiarem a extinção das ditas raças potencialmente perigosas!

Ouvi Criadores a alertarem, para a compra destes cães, apenas em criadores credenciados!

Eis a minha opinião!

Treinadores a mencionarem a importância do treino para prevenir episódios destes!

Caríssimos colegas, não é o treino que vai prevenir estes problemas, mas sim a sociabilização. Não são os “sentas”, os “deitas”, os “ficas”, os “juntos”, os “morder as mangas”, os “rebolas”.... que vão desenvolver um cão pacifico no meio ambiente, mas sim, uma exposição precoce e positiva com os mais variados estímulos ambientais. Processos de dessensibilização e habituação, durante o período de sociabilização dos cachorros (aproximadamente até aos 5 meses), são a chave do sucesso para prevenir problemas de agressividade, isto significa, dar a possibilidade ao cachorro de vivenciar e experienciar tudo aquilo que o futuro lhe reserva. Sociabilização, exige tempo, paciência e boa vontade, mas nada tem a ver com Treino.

Pessoalmente conheço, muitos cães, que possuem uma obediência fantástica e fazem mil e um truques, mas assim que se cruzam com cães/pessoas estranhas, apresentam comportamentos indesejados.
Da mesma forma que conheço, muitos cães, que nem a um simples senta respondem, mas são extremamente pacificos e sociáveis com cães e pessoas estranhas!
Qual dos exemplos preferem? Eu pessoalmente, prefiro o segundo!

Agora a pergunta que fica é: Será que o treino é importante? Claro que é! Mas mais importante que o Treino é a Sociabilização. 

 

Ouvi a Ordem dos Veterinários, a solicitar maior rigor na aplicação da legislação!

Meus amigos, estamos hà anos, a ouvir publicações deste género, mas a nossa legislação sobre o treino de cães e sobre a certificação dos Treinadores, continua dúbia como sempre esteve, logo a solução também não passa por aqui! Já escrevi um artigo sobre este tema, daí não me querer prolongar sobre o assunto! http://www.patrickrocha.pt/post/escolha-do-treinador-para-o-seu-cao
Deixo também um artigo do Roberto Barata, um grande colega e profissional, que aborda este assunto de forma mais extensa. https://etologia.pt/potencialmente-perigosos-ou-potencialmente-em-perigo/

 

Ouvi pessoas, a apoiarem a extinção das ditas raças potencialmente perigosas!

Quando falamos num ser vivo, é pouco sensato generalizar caracteristicas. Cada individuo tem a sua personalidade, como tal, não faz sentido apelar à extinção de uma raça, tendo em conta a individualidade de cada ser! Será que faz sentido apelarmos à extinção do ser humano, só porque no seio da nossa comunidade existem terroristas, pedófilos, corruptos e afins? Claro que não! A genética é mais influenciada do que influencia! Se não temos estes pensamentos com os humanos, porquê tê-los perante os cães?!

A titulo de curiosidade, se optássemos pelas vias da extinção, das ditas raças potencialmente perigosas, daqui a uns anos teríamos uma pequena seleção de raças sobreviventes, isto porque, em Portugal deixariam de existir o “Cão de Fila Brasileiro”, o “Dogue Argentino”, o “Pitbull Terrier”, o “Staffordshire Bull Terrier”, o “Rottweiller”, o “Tosa Inu” e o “Staffordshire Terrier Americano”. A verdade é que, como não existe consenso mundial sobre a "perigosidade" das raças de cães, outros Países possuem listas de raças potencialmente perigosas, diferentes da nossa, ou seja, iríamos ter uma diminuição de raças como: o “Bull Terrier”, o “Dogue de Bordéus” e o “Leão da Rodésia” (raças PP's na Bélgica); o “Boerboel” e o “Doberman” (raças PP's na Suiça); o “Mastiff” (raça PP na França); o “Akita” (raça PP em Espanha); o “Serra da Estrela” e o “Rafeiro Alentejano” (raças PP em Itália); só para mencionar alguns Países!


Ouvi Criadores a alertarem, para a compra destes cães, apenas em criadores credenciados!

Sem dúvida, que apoio criadores credenciados, que se dedicam ao bem estar e à criação de determinadas raças. E se o objetivo de alguém, é comprar uma raça especifica, então que o faça a um criador, que possua bons exemplares e boas condições. No entanto, e apesar de bons criadores se preocuparem com uma sociabilização precoce, antes dos cachorros serem entregues aos futuros tutores, são esses tutores que vão ter a responsabilidade máxima de continuar esse trabalho. Ou seja, a solução do problema, não passa pela criação mas sim pelo trabalho que o tutor vai desenvolver.

 

Concluíndo, todas estas sugestões, são simplesmente “areia para os olhos” e não são a solução para o problema. Nos últimos dias, li e ouvi muitos disparates, e fiquei com a sensação que muitos profissionais se querem aproveitar de uma tragédia, para recolher louvores e benefícios próprios! É triste!

Aqui vai o meu conselho para os Treinadores, Médicos Veterinários, Criadores, DGV, CPC, e todas as Associações e Instituições que de forma direta ou indireta trabalham com cães: Incentivem os vossos clientes a sociabilizarem os seus cachorros!

P.S: Neste artigo, foquei-me exclusivamente na sociabilização, como forma de desenvolver cães emocionalmente equilibrados. No entanto, é perfeitamente possível fazer uma modificação comportamental, a um cão que já apresente comportamentos problemáticos, mas aqui já vamos ter que envolver treino, o que é muito mais exigente que a sociabilização.